Noite Instrumental Brasileira: Carlos Lyra – …E Era Copacabana

Carlos Lyra é um dos criadores da Bossa Nova, gênero que floresceu no Rio de Janeiro no final da década de 50, e que encantou e encanta o mundo até hoje,  continua ativo, compondo e se apresentando pelo Brasil e pelo mundo. Seu ritmo e ginga, de acordo com palavras de Tom Jobim, são ímpares e suas melodias fornecem um apanhado da cultura brasileira com informações de todas as regiões do Brasil. Neste show instrumental, Carlos Lyra apresentou, dentre suas composições, um variado leque de ritmos, tanto com influências da música europeia e americana como da enorme diversidade que é a marca registrada do nosso país. Passando por valsas, modinhas jazz e música espanhola, ele mesclou com as influências brasileiras os sambas, marchas, toadas, choros e vários outros ritmos típicos das diversas regiões do país. (Instrumental SESC)

Formação:
Carlos Lyra – violão
Dirceu Leite – sax, flauta e clarinete
Vander Nascimento – trompete e flugel
Fernando Merlino – piano
Adriano Giffoni -baixo
Ricardo Costa – bateria
Reginaldo Vargas – percussão

Vitrola Política: Pau de arara (Comedor de gilete)

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No segundo episódio da Vitrola Política, lembramo-nos da parceria Carlos Lyra com Vinícius de Moraes, que resultou no musical “Pobre Menina Rica”. O papel título pertencia a Nara Leão, e a peça narrava a historinha de uma solitária menina rica, que se apaixonava por um mendigo,que morava ao lado de sua casa. A peça tinha belas canções, como “Primavera”, “Maria Moita”, “Sabe Você” e “Samba do Carioca”, e ficou vários meses em cartaz, primeiro no Teatro Maison de France, sendo depois levada para o Teatro de Bolso. Uma canção da peça, “Pau de Arara”,  foi gravada pelo paulista Ary Toledo,que cantava a música no palco. Esta música era uma crítica bem humorada, inspirada num tipo real, um pobre nordestino que sobrevivia dançando xaxado na praia de Copacabana e que, de repente, teve a idéia de melhorar seus rendimentos.., comendo gilete. Brincando, brincando o poetinha do amor, Vinicius, introduzia uma ácida crítica social à migração  e à situação do nordestino aqui no sudeste. A gravação mais famosa da música, que fez muito sucesso, foi feita ao vivo, no Teatro Record, durante o programa “O Fino da Bossa”, versão que ganhou gargalhadas estrepitosas da platéia e de Elis Regina, nitidamente ouvidas na gravação, o que acabou enriquecendo em alegria e espontaneidade a performance do intérprete.

 Relembrando “Pobre Menina Rica”, Carlinhos Lyra conta que, ao tomar conhecimento do enredo da peça (na qual o mendigo seresteiro), ponderou com o parceiro: “Mas, Vinícius, você não acha assim meio artificial esse negócio de uma menina rica e bonitona se apaixonar por um mendigo?” Ao que o poeta respondeu: “Acontece que esse é um mendiguinho muito simpático, incrementado, arrumadinho”, e, reforçando a argumentação, fulminou: “Além do mais era primavera parceirinho, primavera, entendeu?”
(Texto baseado em : A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).


Pau de arara (canção, 1965) – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Eu um dia cansado que tava
da fome que eu tinha
eu não tinha nada
que fome que eu tinha ,
que seca danada no meu Ceará


Eu peguei e juntei
um restinho de coisas que eu tinha :
duas calças velhas e uma violinha
e num pau de arara
toquei para cá.


E de noite eu ficava na praia de Copacabana
zazando na praia de Copacabana
dançando o chachado pras moças olhá

Virgem Santa
que a fome era tanta
que nem voz eu tinha
Meu Deus quanta moça
que fome que eu tinha
Mais fome que tinha no meu Ceará


Puxa vida que num tinha uma vida
pior do que a minha
que vida danada , que fome que eu tinha
zazando na praia pra lá e pra cá


Quando eu via toda aquela gente
no come que come
eu juro que eu tinha saudades da fome
da fome que eu tinha no meu Cearà


E ai eu pegava e cantava
e dançava o xaxado
e só conseguia porque no xaxado
a gente só pode mesmo se arrastá.

Virgem Santa
que a fome era tanta
qu’inté parecia que mesmo xaxado
meu corpo subia
igual se tivesse querido voar.

Vou-me embora pró meu Ceará
porque lá tenho um nome
aqui não sou nada
sou só Zé com fome
sou só Pau de Arara


Nem sei mais canto
vou picar minha mula
vou antes que tudo rebente
porque estou achando que o tempo está quente
pior do que antes não pode ficar.

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