Série : Ouvir Jazz – Post 3 – CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DO JAZZ

A africanização da música nas Américas, trouxe consigo características marcantes, percebidas hoje em vários gêneros musicais (jazz,blues,rock,gospel,funk). Escravos africanos, exilados, tinham, na lembrança dos rituais tribais, a única forma de contato com a terra natal. Estes elementos, aos poucos fundiram-se à música europeia. Na música africana:

  • O cantor (ou líder espiritual) canta, chama a plateia para uma resposta em contracanto.
  • Música e dança correlacionam-se intimamente. Habitualmente, o africano, “entende” a música como ligada ao um tipo de dança (ritual)específico.
  • Introdução de instrumentos com o mesmo timbre da voz humana: tambores,mbira (uma série de dentes metálicos ou barras de metal arrancadas, montado sobre uma placa de som de madeira); tanbur (instrumentos feitos de madeira com pescoços longos e corpos de ressonância); conchas.
  • Uso de conchas, pedras, peles de animais, varas, armas, ferramentas, rodas, usados como tambores, chocalhos, raspadores, gongos, palhetas, placas de percussão e até o corpo humano (palmas especialmente), para marcar o ritmo.
  • Capacidade de construir várias camadas de padrões rítmicos resultando em polifonia percussiva. Na música americana, apreciada desde o ragtime, o bebop, até os ritmos do jazz de vanguarda.
  • Ligação ritmo, trabalho. A tradição africana enfatizava o trabalho árduo, ridicularizando a preguiça. Embora, oprimida, escravizada, os negros utilizavam a música, o ritmo para marcar o trabalho.
  • O blues, por outro lado,surgiu como forma alternativa, de lamentar fome, opressão, pobreza, saudade, desejo, sempre de maneira lúdica, sem auto piedade ou recriminações.

Com vários elementos comuns com a música americana e europeia mediterrânea, fica mais fácil entender a facilidade do jazz de fundir, ser amado e aceito mundialmente.

 

Um exemplo africano onde aparecem vários das tendências citadas acima já fundidas com elementos europeus:

Outro exemplo de percursão, polifonia e dança no jazz:

 

Os 50 Melhores Álbuns Internacionais de 2017 – Seleção Vitrola dos Sousa

 

Resultado de imagem para gregg allman southern blood

Ufa ! Até que enfim um tempo para rever 2017. Na nossa opinião estes são 50 discos que valem a pena ouvir de novo, ou ouvir pela primeira vez, em 2018:

 

 

1) Greg Allman – Southern Blood : uma escolha sentimental devido à perda deste grande astro em 2017, mas um álbum excelente de despedida.

Resultado de imagem para sampha process

2) Sampha – Process :mais uma surpresa do R & B britânico, o melhor do mundo, no momento. Ótimo exemplo.

Resultado de imagem para the xx i see you

3) The xx  –  I See You –  Esta é uma banda Indie britânica, londrina, que tem tudo que me agrada no pop inglês.

Resultado de imagem para Paul Weller - A Kind of Revolution

4) Paul Weller  –  A Kind of Revolution: Mais um veterano na lista (ex The Jam e Style Council) , Paul arrasou neste ano

Resultado de imagem para The War on the Drugs - A Deeper Understanding

5) The War on the Drugs –  A Deeper Understanding : De volta aos melhores do ano,para mim esta é a melhor nova banda americana de rock da atualidade.

Resultado de imagem para Courtney Barnett & Kurt Vile - Lotta Sea Lice -

6) Courtney Barnett & Kurt Vile – Lotta Sea Lice – Kurt acha um contraponto delicioso na voz e estilo da australiana Courtney. Delicioso

Resultado de imagem para The National - Sleep Well Beast

7) The National – Sleep Well Beast – Alguém tinha alguma dúvida de que The National é uma das melhores bandas de hoje ?

Resultado de imagem para Father John Misty - Pure Comedy

8) Father John Misty – Pure Comedy – Josh Tillman que usa o pseudônimo de Father John Misty trouxe neste seu terceiro álbum uma pequena joia.

Resultado de imagem para Aimee Mann - Mental Illness

9) Aimee Mann – Mental Illness – Sou apaixonado por Aimee desde que ela era a lead-singer do ‘Til Tuesday nos anos 80. É a mais direta descendente da agridoce de Carly Simon.

Resultado de imagem para Kelela - Take me Apart

10) Kelela – Take me Apart – Disco de estreia desta americana. Promete…

  • 11) St.Vincent – Masseducation
  • 12) Kevin Morby – City Music
  • 13) Robert Plant – Carry Fire
  • 14) Juana Molina – Halo
  • 15) Hurray For The Riff Raff – The Navigator
  • 16) Sharon Jones & the Dap-Kings – Soul of a Woman
  • 17) Beck – Colors
  • 18) Fleet Foxes – Crack-Up
  • 19) Randy Newman – Dark Matter
  • 20) U2 – Songs of Experience
  • 21) Robyn Hitchcock – Robyn Hitchcock
  • 22) Songhoy Blues – Résistance
  • 23) Slowdive – Slowdive
  • 24) Foo Fighters – Concrete and Gold
  • 25) Liam Gallagher – As You Were
  • 26) Moses Sumney – Aromanticism
  • 27) Wolf Alice – Visions of a Life
  • 28) Bedouine – Bedouiene
  • 29) The Moonlandingz – Interplanetary Class Classics
  • 30) Thundercat – Drunk
  • 31) Noel Gallagher’s High Flying Birds – Who Built The Moon?
  • 32) Neil Young – Hitchhiker 
  • 33) Spoon – Hot Toughts
  • 34) Ryan Adams – Prisioner
  • 35) Paramore – After Laughter
  • 36) Sleaford Mods – English Tapas
  • 37) Jane Weaver – Modern Kosmology
  • 38) Oumou Sangaré – Mogoya
  • 39) Laura Marling – Semper Feminina
  • 40) Richard Dawson – Peasant
  • 41) Julie Byrne – Not Even Happiness
  • 42) Lana Del Rey – Lust for Life
  • 43) Julien Baker – Turn Out the Lights
  • 44) Lorde – Melodrama
  • 45) Arcade Fire – Everything Now
  • 46) Kaitlyn Aurelia Smith – The Kid
  • 47) Ryuichi Sakamoto async
  • 48) Chris Stapleton – From a Room: Volume 1
  • 49) Fever Ray – Plunge
  • 50) Mogwai  -Every Country’s Sun

 

 

 

 

 

Lançamento: Boi Luzeiro : É o Boi/Folia dos Sertões (2018)

https://i1.sndcdn.com/avatars-000401462823-tmtlif-t200x200.jpg

No ano passado O Vitrola falou sobre um novo grupo – Boi Luzeiro –  que estava nascendo aqui em BH, com influência da cultura popular de diversas regiões do Brasil como, por exemplo, Folia de Reis, Maracatu de Baque Virado, Coco, Congo, Ciranda e Lavadeiras do norte de Minas.

A estréia do grupo se concretizou em março de 2017 no Centro Cultural da UFMG, através do projeto Música e Poesia.
Integrantes:

  • Militani de Souza (voz e violão)
  • Anna Luiza Magalhães (voz e percussão)
  • João Vitor Romano (voz, violino e baixo)
  • Pedro Pessoa (voz e percussão)
  • Laís Moreira (voz e percussão)
  • Sara Marques (voz e percussão)

Como diz o seu press release:  “Boi Luzeiro é o fluxo das emoções, onde musicalizam-se as travessias. O projeto é preenchido de composições autorais que falam da terra, do rio, dos sentimentos, do sertão, do corpo e da natureza. Músicas e poesias que se misturam em declamações, breves encenações e canções com voz, violão, violino, baixo e percussão.”

Num pais que raramente dá valor ao seu rico patrimônio cultural, é uma alegria poder lançar estes jovens, impregnados de talento, musicalidade e brasileirice. As duas primeiras músicas têm cheiro de curral, sabor de fruta madura, saboreada ao pé de árvore, frescura de sombra de mangueira,  fluidez de um rio sonoro limpo e cristalino. Ouçam com carinho:

 

 

Série : Ouvir Jazz – Post 2 – New Orleans

Canal Street, 1857

ANTECEDENTES HISTÓRICOS:

 

 Jazz nos lembra Nova Orleans, localizada no estado da Louisiana, sul dos Estados Unidos. Para esta nossa série, procurei entender o porquê de um local tão específico.

  • Em 1764, com pouco mais de 50 anos de fundação, Nova Orleans, então francesa, foi cedida pela França à Espanha.
  • Em 1800 o imperador Napoleão Bonaparte reintegrou Nova Orleans à França
  • Logo a seguir, em 1803 ele vendeu por U$15 milhões, ao governo americano, o restante dos territórios na América do Norte, ainda pertencentes à França.
  • Esta venda incluiu a Louisiana francesa que correspondia ao território de 13 dos atuais estados americanos: Louisiana, Arkansas, Missouri, Iowa, Dakota do Norte, Dakota do Sul, Nebraska, Kansas, Wyoming, Minnesota, Oklahoma, Colorado e Montana.
  • O preço final, computados os juros, em valores da época: U$ 27.267.622 por 2.144.500 km² (R$12,72 por km²)
  • Obviamente Nova Orleans passou a pertencer aos Estados Unidos.

Como resultado imediato, Nova Orleans, um porto de frente para o Caribe, já habitada nesta época por imigrantes europeus, majoritariamente latinos (franceses, espanhóis, mexicanos), tradicionalmente mais tolerantes às misturas raciais e culturais, mas também por italianos, escoceses, irlandeses, passou a receber levas de imigrantes africanos. Eles vinham dos próprios Estados Unidos, escravos libertos, após a guerra civil, mas também do Caribe, fugindo do conflito civil em Hispaniola.  Além disto, os africanos expatriados não vinham de uma única região geográfica trazendo consigo influências e culturas diversificadas, tanto africanas, quanto já de misturas adquiridas no exílio.

Este acaso, produziu um caldeirão cultural exótico, uma mistura de culturas e ritmos europeus, caribenhos e africanos, resultando no aparecimento não apenas do jazz, mas também do cajun, do zydeco e outros ritmos locais.

Escute uma amostra de cajun e uma de zydeco: é possível distinguir influências espanholas,francesas, mexicanas, caribenhas e puramente africanas:

Cajun

 Zydeco

Os 50 melhores álbuns de 2017 (Internacional) – Segundo a crítica internacional

Resultado de imagem para kendrick lamar

Anualmente o Vitrola escuta muita coisa e depois faz uma pesquisa pelos principais sites de música para avaliar o que tocou de melhor no ano. Neste ano consultamos:

Mojo; Consequence of Sound; The Guardian;Pitchford;Collector’s Room;QUncut,Fact;Spin;Vulture;Album of the YearStereogun, Time-Out;TMDQA;Billboard;NME;Rolling Stone;Rolling Stone Brasil;Slant Magz;Metacritic;Paste Magazine;APPS;Esquire;Complex.

 LISTA DOS CRÍTICOS: após compilar todos os resultados acima

pos Banda Álbum TOTAL
1 Kendrick Lamar Damn 1403
2 Lorde Melodrama 1150
3 SZA CTRL 1091
4 LCD Soundsystem American Dream 1057
5 St.Vincent Masseducation 975
6 Sampha Process 795
7 The National Sleep Well Beast 748
8 Vince Staples Big Fish Theory 740
9 The War On Drugs A Deeper Understanding 706
10 Father John Misty Pure Comedy 697
11 Perfume Genius No Shape 657
12 Mount Eerie A Crow Looked at Me 593
13 Thundercat Drunk 556
14 Tyler, The Creator Flower Boy 513
15 Jlin Black Origami 502
16 The XX I See You 459
17 Paramore After Laughter 447
18 Kelela Take Me Apart 445
19 Fever Ray Plunge 436
20 Jay-Z 04:44 431
21 Laura Marling Semper Feminina 414
22 Moses Sumney Aromanticism 404
23 Migos Culture 401
24 Jane Weaver Modern Kosmology 395
25 Sheer Mag Need to Feel Your Love 395
26 Wolf Alice Visions of a Life 386
27 Slowdive Slowdive 383
28 Julien Baker Turn Out the Lights 356
29 Hurray For The Riff Raff The Navigator 349
30 Lana Del Rey Lust For Life 328
31 Arca Arca 323
32 Courtney Barnett & Kurt Vile Lotta Sea Lice 320
33 Richard Dawson Peasant 318
34 Taylor Swift Reputation 316
35 The Moonlandingz Interplanetary Class Classics 311
36 J Hus Common Sense 300
37 Kaitlyn Aurelia Smith The Kid 297
38 Susanne Sundfor Music for People in Trouble 290
39 Future HNDRXX 285
40 Stormzy Gang Signs & Prayer 284
41 Priests Nothing Feels Natural 284
42 Julie Byrne Not Even Happiness 281
43 Four Tet New Energy 277
44 King Krule The Ooz 270
45 Jay Som Everybody Works 268
46 The Horrors V 261
47 Paul Weller A Kind of Revolution 257
48 The Magnetic Fields 50 Song Memoir 255
49 Kesha Rainbow 252
50 Sleaford Mods English Tapas 250

No próximo post a lista do Vitrola para os melhores de 2017 (Internacionais)

 

Série : Ouvir Jazz – Post 1

Resultado de imagem para jazz caricature

Crédito: Nobody Asked Us To Do It, painting by Hector Gomez

(caricature of UI Jazz Band)

Não há uma explicação convincente de como surgiu o jazz. O fato de sua aceitação mundial, sua fusão com diversos outros ritmos, tão diversos como o samba, músicas africanas, orientais, só alerta para a sua significância. Durante algum tempo ele permaneceu adormecido, hibernando nas vitrolas de ouvintes de gerações mais velhas. Agora os mais jovens se interessaram pela sua riqueza melódica e querem saber mais sobre sua história, seus ícones, o seu significado.

Recebi um desafio: criar dentro do Vitrola dos Sousa,  uma pequena introdução, permitindo aos novos ouvintes conhecerem melhor a sua riqueza, mas obedecendo ao nosso estilo de pouco texto e muita música (afinal somos uma vitrola e elas tocam essencialmente sons).

Apesar disto, vou iniciar com uma sugestão literária. Quem melhor me permitiu entender o jazz foi um livro: Jazz, escrito pela escritora americana Toni Morrison. Nele, ela recria o ambiente urbano, em que o jazz se consolidou. A história se passa no Harlem, mas poderia ter acontecido em Belo Horizonte, no Rio ou em Paris. Se puderem leiam e a trilha sonora de nossos posts poderá ser melhor apreciada.

Só para aguçar o apetite:

Zimbo Trio – Quem Diria (é Jazz ou MPB?)

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: