Crônica: B.B. King no ônibus

Uma situação curiosa aconteceu comigo nessa manhã de sexta-feira, vindo para o trabalho.

Entrei no ônibus que pego regularmente, na minha rotina de sempre, com um livro na mão para me entreter nesse período até chegar no trabalho. O livro que estou lendo no momento é a autobiografia de B.B.King (que recomendo fortemente) e, quando me sentei na cadeira, o sujeito ao meu lado me cutucou e disse, com um sotaque gringo:

Eu estou escutando isso ai agora.

Fiz uma cara de dúvida (não sou nada simpática de manhã, vocês sabem) e ele continuou:

B.B.King. Riding With The King. Estou escutando.

Vi que ele apontava para o fone de ouvido. Dei um sorriso simpático e achei que o papo tinha acabado ali.

Enquanto eu tentava avançar nos capítulos do livro, o sujeito (que descobri ser italiano), ficava “pescoçando” a minha leitura e fazendo comentários, que eu tentava, ao máximo, ignorar. Até que ele insistiu em puxar assunto:

Dizem que B.B.King é o maior guitarrista do mundo. Eu prefiro Gary Rossington, do Lynard Skynard.

Novamente, eu ri e disse:

São estilos diferentes. Mas ele é bom também.

E, não satisfeito, continuou:

Rock é isso ai. Não o que vocês brasileiros insistem dizer que tocam. Quando me falam que Rita Lee, Titãs e Paralamas do Sucesso é Rock, eu quero chorar. Rock é inglês. Eu fui contaminado pelo vírus do Rock cedo, cresci ouvindo Rolling Stones. Isso é Rock.

Sorri. E tentei dizer: “Não concordo, mas OK.” Mas preferi ficar calada.

E enquanto continuava “pescoçando” meu livro ele ainda teve tempo de soltar mais uma pérola, antes de descer do ônibus:

Fico satisfeito de ver uma brasileira fazendo uma leitura interessante, visto que a literatura de seu país é tão fraca. Parabéns.

Dessa vez eu nem mesmo ri. Fiquei calada. Ele desceu, eu segui em frente. Pensei se não deveria ter ficado chateada com os comentários que ele fez sobre a cultura do meu país. Mas depois refleti melhor, e cheguei a conclusão de que deve ser realmente difícil para alguns gringos, do “primeiro mundo” reconhecer que mesmo com tanta confusão, tanta corrupção (muitas delas influenciadas por nossa “genética” italiana) e tantos problemas sociais, a gente ainda consegue ter música e literatura feitas por nós mesmos, de qualidade. Não precisamos ficar presos ao “rock inglês” ou à “literatura europeia”.

Tive pena. Espero que um dia ele consiga voltar para a Itália e ser mais feliz (mesmo que o meu país tenha, aparentemente, o recebido de braços abertos).

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